Filme da semana: “Dentro da Casa”, de François Ozon.

Filme da semana: “Dentro da Casa”, de François Ozon.

Filme da semana: “Dentro da Casa”, de François Ozon.

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“Existe sempre uma maneira de entrar”.

O mais novo filme do diretor francês François Ozon e ainda em seção por alguns cinemas é um thriller psicológico de deixar de queixo caído. A história trata de um professor de literatura rancoroso e desacreditado com seu trabalho, exausto de uma infindável mediocridade dos alunos, que se depara com um aluno de 16 anos (Claude Garcia), percebendo seu dom natural que o mesmo tem para a escrita por meio das redações que tratam da continuidade de um acontecimento que se segue: Claude entrando na casa de seu colega Rapha. Uma casa que pela qual ele sempre teve um fascínio, ficando ali sentado e observando. Com isso, o professor não só volta a ter paixão pelo seu trabalho como incita Claude a prosseguir com suas inusitadas redações.

O filme e a direção evidenciam a cada instante a amargura do professor (Germain), vendo em Claude algo que ele nunca teve a cada instante trabalhando como tutor do menino para que seus textos pudessem ser aperfeiçoar. Mesmo com as reprimendas da mulher, Germain prossegue. Claude vê um interesse singular na estrutura familiar tão simplória da família de seu colega. Não há absolutamente nada de especial e talvez fosse isso que causasse o fascínio do garoto: A normalidade entediante.

Mais que puro voyeurismo, fica implícito o desejo dele de fazer parte de tudo aquilo, sempre indo a casa na desculpa de ensinar o colega matemática, mas aproveitando para observar com prazer sua mãe, que também nada possui de especial. É apenas uma pessoa entediada, o próprio personagem ressalta. A brincadeira da metalinguagem, que é quase uma gozação, entra quando Germain começa a discutir sobre as atitudes dos personagens da casa como se se tratassem de ficção, esquecendo que são pessoas de carne e osso por meio das palavras do seu pupilo. Por isso, tudo que a gente imagina acontecer pela previsibilidade, na verdade não ocorre por não ser um conto.

Essa mesma metalinguagem surge no que foi, para mim, o grande acerto da produção: As redações como cenas, com o professor nelas sendo apenas percebido pelo autor apenas, criticando as passagens dos momentos. Nada mais metalinguístico do que isso!

A estrutura familiar da casa é insensível e, volto a usar o termo, entediante, mas nada disso faz com que tomem as decisões que esperamos no fim, justamente por serem uma família unida. Porém, o que garante que tudo que Claude contou é verdade? Ele é o deus daquele universo de palavras que compartilha para tornarem reais seus desejos. Logo, o jogo não é só entre Claude e Germain, mas entre Ozon e nós. Sem tornar o filme complicado, as opções que o diretor toma criam enigmas em nossa cabeça, entrecortando a realidade e a ficção do filme.

Mais que isso, Ozon também dispõe em seu filme diversas críticas feitas pela boca de Germain tanto com relação a construção literária da atualidade (criticando Claude quando cria textos de conteúdo mastigado ou muito decorados sem objetividade), quanto a arte moderna e o comércio da arte, o que demonstra em cada dialogo dele como sua mulher.

Ernst Umhauer, que faz Claude, não errou em nenhum ponto com seus olhares cínicos. Seu personagem mostra o poder manipulador das palavras, tornando Germain um servo das continuações, daquelas palavras, podendo até ser antiético para obtê-las.

E quanto ao final? “Sabe qual o segredo de um bom final? O leitor precisa pensar: Não esperava por isso… e ao mesmo tempo era o único modo de terminar”. Como me reconheço muito com o final, não posso nem pensar em dizer que não ficou maravilhoso. Veja o filme e descubra se concorda comigo. Uma ode à originalidade que está em escasso, mas que podemos obter olhando ao nosso redor para cada casa e imaginando que histórias será que a habitam?

Título Original: Dans La Maison

Duração: 105 min.

Direção: François Ozon

Roteiro: François Ozon, Juan Mayorga

Estreou no Brasil: 29 de Março de 2013

 

Por: Gabumon

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