Coluna Experiência de Leitor: Águas vivas e o mundo do “Maior é Melhor”

Coluna Experiência de Leitor: Águas vivas e o mundo do “Maior é Melhor”

Coluna Experiência de Leitor: Águas vivas e o mundo do “Maior é Melhor”

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   O Século XX veio com uma massificação da produção, novos métodos de fabricação, que, após a derrocada do comunismo, totalizou uma coluna vertebral de pensamento que age no mercado, na política, na cultura e reverbera em nossos ossos. Entre as espinhas dessa estrutura que se enraizou, temos uma ideia que nos é aplicada durante vários momentos da nossa vida: Mais é Melhor. Em razão dos objetivos de lucro, quanto menos se gaste em prol de mais obtenção, melhor o negócio.
Ficou então instalada uma confusão entre quantidade e usabilidade. Por um lado, objetos compactos, cada vez menores e práticos são valorizados e buscados. Por outro, para esses itens é necessário grande quantidade de aplicativos e utilidades para fazer valer o negócio envolvido. Vemos o tamanho com extrema relevância e quantidade e qualidade se contorcem até ficar difícil distinguir suas delimitações.  Mas como isso se apresenta no universo literário?
Gostaria de pegar como ponto de partida Clarice Lispector, autora que devido a sua linguagem que corta as barreiras da língua e subverte todas as lógicas com uma fluidez única, apresenta um caráter atemporal. Um dos livros mais consagrados da autora de origem ucraniana, ‘Água Viva’ se apresenta como um desfile inconcluso e aberto de frases dadas ao texto como lembretes, anotações, construindo um monólogo multiforme que expande e reflete sobre vida e sonhos de uma forma fora de qualquer padrão. Muito pelo contrário, Lispector está sempre destrinchando com originalidade todo resquício de lugar comum, invocando um ambiente metafórico recoberto de metáforas e reflexões próprias do seu estilo.

   A linguagem por vezes se transfigura numa pintura em meio a narração de uma pintora solitária que transforma silêncio em palavras, silêncio no qual se rasgam paredes e as palavras se moldam infinitas vezes, correndo pelos olhos como um córrego, uma torrente de água viva correndo como naturalidade. Esse livro, publicado em 1973, em suas maiores edições praticamente não chega a 100 páginas. Quantas vezes já nos paramos ouvindo “Mas esse livro é tão pequeno”. Escutei isso algumas vezes, por exemplo, em se tratando de ‘O Oceano no fim do caminho’, mais recente obra do autor e roteirista Neil Gaiman. A questão é, há uma quantidade de palavras definida para o livro passar sua mensagem?
Originalmente, o texto que Lispector planejava para seu livro carregava cerca de 400 páginas. Costurando sua escrita, tivemos a obra que temos hoje para nossa satisfação. Tamanha é a diferença que Água Viva se apresenta com uma densidade pitoresca incluída numa quantidade de papel no qual livros de 500 páginas não conseguem (pelo menos não para uma quantidade considerável). Claro que a medição de qualidade varia de um para um de acordo com nossos modelos de comparação, mas como podemos julgar uma obra por seu tamanho? Nossa lógica regente nos impele a crer que a maior quantidade de palavras será capaz de nos induzir a uma história mais profunda. Seria isso de fato real?
Observo pessoas no intento de escrever apavoradas com a ideia de publicar algo pequeno, como se os livros grandes fossem intimidadores e os menores fossem rasos. Não seria mais sinal de singularidade transmitir algo genuíno através de poucas palavras do que um fator negativo?

Por Gabumon

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